Bitcoin e Eu
A próxima vez que ouvi falar do Bitcoin foi no final de 2010.

Original: Bitcoin and Me
por: Hal Finney, 2013
Achei que valeria a pena escrever sobre os últimos quatro anos, um período marcante tanto para o Bitcoin quanto para mim.
Para quem não me conhece, meu nome é Hal Finney. Comecei minha trajetória na criptografia trabalhando em uma das primeiras versões do PGP, ao lado de Phil Zimmermann. Quando Phil decidiu fundar a PGP Corporation, fui um dos primeiros funcionários contratados e permaneci trabalhando com o PGP até me aposentar.
Ao mesmo tempo, envolvi-me com o movimento cypherpunk. Entre outras atividades, fui responsável pelo primeiro serviço de remail anônimo baseado em criptografia.
Avançando para o fim de 2008, chegamos ao anúncio do Bitcoin.
Percebi que muitos veteranos da criptografia, como eu, que já estava na casa dos cinquenta anos, tendiam a encarar novidades com certo ceticismo. Eu, por outro lado, continuava bastante idealista. Sempre fui fascinado pela criptografia, pelo mistério e pelos paradoxos que ela envolve.
Quando Satoshi anunciou o Bitcoin na lista de discussão sobre criptografia, a recepção foi, na melhor das hipóteses, desconfiada. Criptógrafos já tinham visto inúmeros projetos grandiosos apresentados por iniciantes sem experiência. Era natural que reagissem com desconfiança.
Minha reação foi diferente.
Havia muitos anos eu me interessava por sistemas de pagamento baseados em criptografia. Além disso, tive a sorte de conhecer e trocar inúmeras mensagens com Wei Dai e Nick Szabo, hoje amplamente reconhecidos como os criadores de ideias que acabariam sendo concretizadas pelo Bitcoin. Eu mesmo havia tentado desenvolver uma moeda baseada em prova de trabalho chamada RPOW. Por isso, o Bitcoin me pareceu absolutamente fascinante.
Assim que Satoshi publicou a primeira versão do software, fiz o download imediatamente.
Acredito que fui a primeira pessoa, além do próprio Satoshi, a executar o Bitcoin. Minerei um dos primeiros blocos, algo em torno do bloco 70, e recebi também a primeira transação da história da rede, quando Satoshi me enviou dez bitcoins apenas para testar o sistema.
Durante os dias seguintes, mantivemos uma troca constante de e-mails. Na maior parte do tempo, eu relatava bugs encontrados no software e ele respondia corrigindo-os.
Hoje, a verdadeira identidade de Satoshi Nakamoto tornou-se um dos maiores mistérios da tecnologia. Naquela época, porém, eu acreditava estar conversando com um jovem de ascendência japonesa, extremamente inteligente, competente e sincero.
Ao longo da minha vida tive o privilégio de conhecer muitas pessoas brilhantes. Aprendemos a reconhecer certos sinais.
Depois de alguns dias, o Bitcoin já funcionava de maneira bastante estável, então deixei o programa rodando.
Naquela época, a dificuldade de mineração era igual a 1. Era possível encontrar blocos utilizando apenas o processador do computador; placas de vídeo sequer eram necessárias.
Durante alguns dias, consegui minerar diversos blocos.
Acabei desligando o programa porque ele fazia meu computador aquecer demais, e o barulho constante da ventoinha começou a me incomodar.
Olhando para trás, gostaria de ter continuado minerando por mais tempo.
Por outro lado, tive uma sorte extraordinária de estar presente desde o primeiro dia. É aquela velha história do copo meio cheio ou meio vazio.
A próxima vez que ouvi falar do Bitcoin foi no final de 2010.
Fiquei surpreso ao descobrir que o projeto não apenas continuava vivo, como os bitcoins haviam adquirido valor monetário.
Procurei minha antiga carteira digital e fiquei aliviado ao ver que minhas moedas ainda estavam lá.
À medida que o preço começou a subir e passou a representar dinheiro de verdade, transferi meus bitcoins para uma carteira offline, onde espero que um dia possam beneficiar meus herdeiros.
Falando em herdeiros, recebi outra grande surpresa em 2009.
Naquele ano fui diagnosticado, de forma completamente inesperada, com uma doença terminal.
O mais curioso é que eu estava na melhor forma física da minha vida.
Havia perdido bastante peso e começado a praticar corrida de longa distância. Completei várias meias-maratonas e já treinava para correr uma maratona completa. Cheguei a fazer treinos de mais de 30 quilômetros e acreditava que estava preparado.
Foi justamente nesse momento que tudo começou a dar errado.
Meu corpo passou a falhar.
Minha fala ficou arrastada, perdi força nas mãos e minhas pernas demoravam cada vez mais para se recuperar dos exercícios.
Em agosto de 2009 recebi o diagnóstico de ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, também conhecida como doença de Lou Gehrig, em referência ao famoso jogador de beisebol que sofreu da mesma enfermidade.
A ELA destrói os neurônios motores, responsáveis por transmitir os sinais do cérebro aos músculos.
A doença provoca inicialmente perda de força e, aos poucos, evolui para uma paralisia progressiva.
Na maioria dos casos, leva à morte entre dois e cinco anos após o diagnóstico.
No começo, meus sintomas eram relativamente leves e consegui continuar trabalhando.
Mas o cansaço constante e as dificuldades para falar acabaram me obrigando a me aposentar no início de 2011.
Desde então, a doença continuou avançando de forma inevitável.
Hoje estou praticamente paralisado.
Sou alimentado por uma sonda e respiro com a ajuda de outro tubo.
Utilizo um sistema comercial de rastreamento ocular para controlar o computador.
Esse equipamento também possui um sintetizador de voz.
Esta é, literalmente, a minha voz agora.
Passo praticamente todo o dia em minha cadeira de rodas motorizada.
Desenvolvi inclusive uma interface baseada em Arduino que me permite ajustar a posição da cadeira utilizando apenas o movimento dos olhos.
Foi uma grande adaptação.
Mesmo assim, não considero que minha vida seja ruim.
Ainda consigo ler, ouvir música, assistir à televisão e ver filmes.
Recentemente descobri que também consigo continuar programando.
É um processo extremamente lento, talvez cinquenta vezes mais demorado do que antes.
Ainda assim, continuo apaixonado por programação, e ela me dá objetivos para perseguir.
No momento estou trabalhando em uma ideia sugerida por Mike Hearn: utilizar os recursos de segurança presentes nos processadores modernos, desenvolvidos para a chamada "Computação Confiável" (Trusted Computing), para tornar as carteiras de Bitcoin mais seguras.
O projeto está praticamente pronto.
Falta apenas concluir a documentação.
Naturalmente, também me divirto acompanhando as fortes oscilações no preço do bitcoin.
Tenho interesse direto nisso.
Mas consegui meus bitcoins principalmente graças à sorte, não por algum mérito extraordinário.
Também vivi a grande queda de preço de 2011.
Portanto, já passei por isso antes.
O que vem fácil, também pode ir embora facilmente.
Essa é a minha história.
No balanço geral, considero-me uma pessoa muito sortuda.
Mesmo convivendo com a ELA, sinto que tive uma vida profundamente gratificante.
Sei, porém, que minha expectativa de vida é limitada.
Por isso, aquelas discussões sobre como deixar seus bitcoins para seus herdeiros nunca foram, para mim, apenas um exercício teórico.
Meus bitcoins estão guardados em um cofre bancário.
Meu filho e minha filha entendem bem de tecnologia.
Acredito que eles estarão seguros.
E eu estou em paz com o legado que deixarei.


