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Mitos do Bitcoin

Desmistificando as 4 mentiras mais persistentes sobre o Bitcoin.

Breno Brito
Escrito por

Breno Brito

Engenheiro, desenvolve a Freedom Skills, com foco em skills para agentes de IA usarem Bitcoin, Nostr e outras tecnologias de liberdade.

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Em tecnologia e finanças, existe um fenômeno curioso: quanto mais disruptiva é uma inovação, mais tempo as velhas narrativas de medo levam para desaparecer. Seguimos para quase duas décadas de existência do Bitcoin, mas alguns mitos insistem em resistir ao seu devido fim.

O motivo dessa persistência não é técnico, é psicológico. O Bitcoin subverte premissas que foram naturalizadas na nossa cabeça desde a infância. Fomos ensinados a acreditar que o dinheiro precisa de um governo para ter valor, que a inflação é um sinal inevitável de saúde econômica e que qualquer sistema financeiro fora do controle dos bancos centrais é inerentemente caótico.

Quando a realidade bate à porta com um protocolo matemático, escasso e descentralizado, a primeira reação do status quo é criar espantalhos. Para ajudar a enterrar de vez esses conceitos obsoletos, separei os quatro mitos mais difíceis de serem erradicados no debate público para trazer, de forma sucinta, embasada e direta, o porquê de eles não passarem de falácias colonizadas pelo sistema fiduciário.

"A economia precisa de inflação, então o bitcoin é inviável"

Essa talvez seja a ideia mais bem sucedida da era do dinheiro fiduciário: convencer pessoas comuns de que perder poder de compra aos poucos é um sinal de normalidade. O raciocínio foi naturalizado a tal ponto que muita gente reage como se fosse infantil sequer questionar metas permanentes de inflação acima de zero. Mas isso é muito menos ciência assentada do que parece.

Apesar do propagandeado suposto consenso acadêmico, o banco central americano publicou uma revisão de 160 estudos sobre política monetária dos últimos 30 anos e 80% deles indicam uma inflação ótima de 0% ou menos (deflação). 

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Anthony Diercks, The Reader's Guide to Optimal Monetary Policy (SSRN). Source: https://ssrn.com/abstract=2989237

Quando economistas defendem inflação estrutural, eles geralmente prometem 3 benefícios:

  1. mais atividade econômica,

  2. mais investimento e

  3. facilidade de ajustes de salários.

Traduzindo do economês para o português:

  1. A inflação empurra pessoas a consumir antes que os preços subam. Lembra dos seus pais comprando tudo no início do mês? É por isso que gera "atividade econômica" (temporária) e também consumismo;

    Consumismo é uma palavra basicamente inexistente dos livros até o fim do padrão-ouro
    (https://books.google.com/ngrams/graph?content=consumerism&year_start=1800&year_end=2022&corpus=en&smoothing=3)

  2. A inflação destrói a poupança, forçando o cidadão para ativos de risco para não perder o dinheiro; e

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  1. A inflação gera redução real de salários sem precisar anunciar corte nominal, facilitando a vida de grandes empresas ao custo do trabalhador.

Inflação gera destruição econômica, não precisamos disso. O Bitcoin resolve esse problema.

"A mineração de bitcoin destrói o meio ambiente"

Esse mito costuma vir embalado em tom de evidência definitiva: bitcoin gasta energia, logo bitcoin é ambientalmente absurdo. Mas "gastar energia" não é categoria moral suficiente para encerrar discussão nenhuma. Hospitais gastam energia. Refrigeração de alimentos gasta energia. Data centers, videogames, secadoras, iluminação de estádio, tudo gasta energia. O ponto não é o gasto em si. O ponto é para que serve esse gasto e quais incentivos ele cria.

No caso do bitcoin, gasto energético não é um bug. É parte do mecanismo de segurança. A prova de trabalho existe para tornar ataques caros. O que a rede compra com energia é dificuldade de adulteração, custo de censura e resistência à captura. Estamos pagando pela segurança da rede.

Ainda assim, segundo estudo da Galaxy Digital, o Bitcoin gasta bem menos energia que o sistema fiduciário e o sistema atual para minerar e manter o ouro.

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https://www.galaxy.com/insights/research/on-bitcoins-energy-consumption

Por outro lado, a energia gasta pelo Bitcoin pode ser:

  • Uso de energia renovável - Hoje mais de 50% da mineração dos EUA é feita através de energia renovável.

  • Usada para a estabilidade de rede de energia do país - Desde 2021, mineradores texanos coordenam com a empresa de energia local para ligar ou desligar máquinas e impedir apagões.

  • Reciclada - Piscinas, estufas, ou qualquer lugar que use aquecimento pode usar o calor residual de mineradores de Bitcoin.

  • Redutora de metano - Quando petróleo é retirado do manto terrestre, gás natural é ventilado na atmosfera e pode ser queimado para minerar bitcoin, transformando em CO2, que é muito menos danoso.

* Bitcoin's role in the ESG imperative. KPMG. Source: https://kpmg.com/kpmg-us/content/dam/kpmg/pdf/2024/bitcoins-role-esg-imperative.pdf

"Bitcoin é coisa de criminoso"

Esse é um dos mitos mais persistentes porque ele mistura medo, novidade e ignorância técnica em doses perfeitas. Como bitcoin permite transferir valor pela internet sem pedir permissão a um banco, muita gente conclui que ele foi feito "para criminosos". O salto lógico é enorme. Segue mais ou menos a mesma estrutura de dizer que criptografia foi feita para sequestradores porque bandidos também gostam de privacidade.

O primeiro problema dessa tese é quantitativo. Mesmo usando estimativas conservadoras, o uso ilícito é uma pequena fração da atividade total com criptoativos, perto de 0,1%*. O segundo problema é comparativo: se o critério for "criminosos usam", então o dólar continua sendo disparado a moeda favorita do crime global. Lavagem, corrupção, tráfico, evasão e propina não foram inventados pelo bitcoin, não dependem dele para existir e continuam funcionando muito bem em moeda fiduciária (vide caso Banco Master).

O terceiro problema é mais interessante: bitcoin não é anônimo, é pseudônimo. A blockchain é pública e auditável. Endereços não carregam CPF, mas carregam histórico. Isso faz com que o sistema seja bem menos opaco do que a intuição inicial sugere. Não por acaso, investigações de alto perfil já usaram análise de blockchain para rastrear fundos, identificar fluxos e recuperar valores. Para crime sofisticado, isso pode ser uma vantagem limitada em alguns contextos. Para crime burro, pode ser uma armadilha.

https://www.chainalysis.com/reports/crypto-crime-2026/

"Quem controla o hashrate controla o Bitcoin"

Hashrate mede capacidade de mineração, isto é, o volume de trabalho computacional dedicado a tentar encontrar blocos válidos. Um maior hashrate no sistema significa mais custo para atacar a rede. Também significa mais competitividade na produção de blocos. Isso dá ao minerador alguns poderes concretos, como escolher a ordem de transações do seu bloco e, em cenários extremos, tentar certos ataques de censura ou gasto duplo. Só que isso não equivale a poder soberano sobre as regras do sistema.

Quem define o que é ou não é um bloco válido são os nós que validam as regras do protocolo. São eles que checam emissão, assinaturas, estrutura das transações e ausência de gasto duplo. Se um minerador, ou mesmo um conjunto muito grande deles, tentar produzir um bloco que viole essas regras, os nós simplesmente rejeitam esse bloco e eles perdem a recompensa do bloco. A rede não "obedece" hashrate de maneira cega.

Em 2017, mesmo com a rede menos madura, a grande maioria dos mineradores se reuniram presencialmente com outras grandes empresas, desenvolvedores e influenciadores num conluio para fazer um hard fork e mudar o tamanho dos blocos. Essa tentativa falhou e ficou conhecida como Guerra do Tamanho dos Blocos, ou Guerra dos Forks.

* The Blocksize War: The battle over who controls Bitcoin's protocol rules. por Jonathan Bier. Source: https://link.amazon/B02H1mCnX

Conclusão

Caso queira entender o básico bem feito de Bitcoin, de forma curta e rápida, olhe meu livro 101 Perguntas sobre Bitcoin, que tem várias outras dessas perguntas respondidas de forma simples e direta. 

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